As flores de Alice - Capítulo Um

Pela janela da sala os primeiros raios do Sol invadiam o cômodo imundo, expulsando as sombras que haviam sido deixadas pela noite. Lentamente as baratas se dirigiam para os buracos nas paredes, escondendo-se do dia que nascia. Geralmente Alice já tinha se levantado, mas a casa estava estranhamente quieta naquele dia. Cássio bateu mais forte na porta, pensando que sua namorada havia dormido até tarde. Não seria de se surpreender, afinal, eles ficaram conversando pelo telefone até as três horas da madrugada, tentando se acertar. Curiosamente, ele nem se lembrava o teor da briga. Eram tão comuns as discussões entre os dois que ele ás vezes sentia falta delas.

 Colocou o buquê de rosas na mesa do corredor e se abaixou procurando a chave extra nas plantas. Na maioria das vezes, ela deixava a chave ali pra ele não incomodar os vizinhos quando chegava. O problema é que ela não sabia que ele iria esta manhã. Cássio havia planejado surpreendê-la com as flores e o pedido de casamento, mas ao encontrar a chave na planta soube que algo estava errado. Ficou pouco mais de um minuto parado deixando o olhar vagando da chave para a porta e de volta para a chave. Tomando coragem ele colocou a chave na fechadura e a girou o mais silenciosamente possível. Entrou na sala notando a bagunça maior do que o normal tomando o lugar. Deixou as flores sobre o único espaço onde não havia sujeira na mesa do centro. O resto estava debaixo do maior acúmulo de comida e lixo que Cássio já vira. Olhou em volta ainda tentando entender a causa de tudo aquilo. Alice era bem desleixada ás vezes, mas aquilo beirava o abandono. Ouviu um ruído vindo do fim do corredor, como algo raspando na madeira. Viu o enorme labrador de Alice raspando a pata dianteira na porta do quarto, no fim do corredor. Parou encarando a porta. O cão lambeu sua mão de leve, soltando um ganido baixo. Cássio girou a maçaneta, abriu a porta e a viu. Ela estava deitada seminua com as pernas retorcidas. Seu braço direito repousava sobre seu peito enquanto seu corpo escondia o esquerdo. Sua cabeça pendia para fora da cama de casal e uma poça de vomito havia se formado no piso ao lado da cama. Cássio levou alguns segundos para assimilar tudo, mas assim que entendeu a cena correu para junto de Alice.

ALICE, PELO AMOR DE DEUS O QUE HOUVE?! FALA COMIGO, AMOR! – o corpo da moça permanecia frio e inerte – ALICE, NÃO! POR FAVOR, NÃO! ACORDA AMOR! ACORDA!

A ambulância chegou por volta das dez horas da manha. O tempo todo Cássio ficou ao lado do corpo de Alice. Ás vezes se lamentando por não ter estado lá, ás vezes lembrando-se dos momentos que tiveram. O CD player dela ficara tocando a noite inteira seus CDs favoritos e agora tocava ‘’Nothing Else Matters’’ do Metallica. A banda favorita dos dois. Sempre ouviam juntos quando podiam e Cássio adorava essa musica, mas, infelizmente, só agora entendia o real significado dela. ‘’So close no matter how far… ’’ começava a musica, mas nesse exato momento um dos paramédicos desligou o som, arrastando Cássio de volta à sua triste realidade. Um policial parou à sua frente com um caderno de anotações e uma caneta de marca barata.

—Garoto, podemos conversar na sala, por gentileza? Você tem umas perguntas pra responder. – disse ele se encaminhando para a porta. Cássio se levantou e caminhou atrás do detetive sem tirar os olhos do corpo de sua namorada.

Havia seis ou sete policias na sala e todos se viraram quando viram Cássio entrando. O detetive sentou-se no sofá e apontou a poltrona para que ele se sentasse.  Cássio ficou de pé, de costas para a porta. Dois policiais se postavam na porta e ele notou que comentavam sobre ele.

—Você era parente da vítima, garoto? – disse o detetive.

— Noiv… Namorado. – ele conseguiu dizer.

—Se quiser beber algo para relaxar, fique à vontade. – o detetive disse sem levantar a cabeça do bloco de anotações.

—E adianta? – Cássio respondeu secamente. Aquilo podia ser rotina pra eles, mas não era para ele.  – Não é um copo de uísque que vai trazê-la de volta, certo? – ele completou encarando o detetive.

A sala ficou em silencio por poucos segundos, mas foi o suficiente para Cássio ouvir o policial que estava a direita na porta de entrada cochichando para o outro. As únicas palavras que entendeu foram ‘’drogada’’ e ‘’morta’’, mas foi o suficiente pra fazê-lo agir. Num reflexo de fúria ele se virou e agarrou o policial pelo colarinho, seu antebraço empurrando o queixo dele contra a porta. Todos na sala ficaram paralisados exceto o outro tira da esquerda, que sacou a arma do coldre e agora a apontava para a cabeça de Cássio.

—EU VOU TE MOSTRAR QUEM ERA DROGADA, SEU DESGRAÇADO! – Cássio berrava encarando o policial – EU VOU TE MATAR, SEU BOSTA!

­—Larga ele agora! – ordenou o policial sem abaixar a arma.

O detetive se levantou e caminhou até ficar entre Cássio e a arma do outro policial.

—Solte-o, rapaz. Nós estamos aqui para ajudá-lo. Ele não quis dizer isso, não foi, Fontes? – ele disse encarando o policial perplexo que se limitou a agitar a cabeça apressadamente. – Agora solte-o e sente-se no sofá. Nenhum de nós teve a culpa do suicídio de sua namorada.

Cássio soltou o policial e se virou para o detetive encarando-o sem entender ainda o que ele havia dito.

—Suicídio? É essa a teoria de vocês?

—Não é teoria – respondeu o detetive sentando-se novamente – Uma grande quantidade de um medicamento foi encontrado no sangue da sua namorada. As digitais dela estão na caixa e em alguns comprimidos que estavam espalhados. Agora, já sabemos seu nome, seu endereço e seu telefone graças aos seus documentos, mas ainda tem coisas a esclarecer. Como por exemplo…

—Ela não se suicidou! – Cássio interrompeu encarando o detetive – Alice jamais faria algo assim. Ela nem sequer usava drogas – seu olhar encontrou o do policial de relance.

—Garoto, eu sei que é difícil aceitar, mas nós somos peritos. Lidamos com isso direto. Vai por mim, quanto mais cedo você aceitar, mais fácil fica de entender o motivo depois. Essa é a nossa linha de investigação, e é a ela que vamos seguir. – ele disse por fim.

—Então pode pegar sua linha de investigação e ir se danar – disse isso saindo do apartamento. O cão de Alice pulou do canto onde estava e seguiu Cássio até o carro. Quando já estavam longe da casa Cássio teve o primeiro pensamento que o levaria à ruína. ‘’Isso não vai ficar assim. Eu vou descobrir quem fez isso com você Alice’’. E com esse pensamento acelerou seu carro.

 

A Canção de Romeu - por Jôder Filho

Não é assim que as coisas são.

Ou pelo menos devem ser.

Tão normal sentir no coração,

tão normal gostar de você.

As vezes penso ser só solidão.

As vezes penso que é um bem querer.

De qualquer forma, certos ou não,

os dias contigo me fazem viver.

As vezes me indago se é justo ou normal.

Questionando propósitos maiores que os meus.

Mendigando mentiras e me alimentando do mal

à noite chorando clamando por Deus.

Agora percebo o que fiz de minha vida.

Dia após dia a observar você.

Ajoelho e imploro que volte, querida.

E você nem responde. E você nem me vê.

Por fim eu entendo que não devo te esperar.

Agora eu vejo que eu é que tenho que me mover.

Um beijo lhe envio, estou indo te encontrar.

Puxo o gatilho sem pestanejar.

E tombo inerte em frente à você.

formspring.me
O Ex-funcionário do mês - Por: Jôder Filho

Chego no serviço 5 minutos atrasado, o que não faz a mínima diferença, uma vez que meu patrão chegou meia hora antes. Ele nunca chega adiantado. A não ser quando vem chumbo quente. Bato o ponto às oito, tomo um café tão ruim que meu estômago sobe até a garganta e desce de novo, ligo o computador e sou demitido às 8h45, aproximadamente. Empacotei minhas coisas e saí rapidamente. Uma pena, não deu pra me despedir dos colegas. Queria poder ter dito o quanto odiava cada um deles e o quanto eram medíocres e hipócritas. Não deu pra mandar o chefe pra um lugar verbalmente, mas mentalizei a cena, o que já me animou.

Chego em casa e vejo o bilhete da minha esposa dizendo que agora é minha ex-esposa. Pena. Queria ter dito o quanto odiava aquilo que ela chamava de decoração da casa. Pra ela era arte, pra mim, um cenário do programa da Hebe. Havia um sofá gigante no meio da sala, sendo que morávamos só nós dois. O pai dela às vezes nos visitava. Era sempre bom quando ele vinha. Eu fazia o almoço favorito dele enquanto ele e minha esposa, ops… ex-esposa, conversavam na sala. Ele dizendo à ela o quanto ela tinha errado em casar comigo e não com algum médico ou advogado filho de um de seus amigos. Em vinte e nove anos de casados, eu nunca a ouvi discordar. Achava, a principio que era pra não contrariar o pobre velho. Agora sei que no fundo (não tão fundo assim) ela concordava.

Olha pelo lado bom, ela levou o sofá. E as poltronas. E a TV de LCD. E a geladeira. E a cama. E o aparelho de som. E o DVD, e o Home Theater. Confesso que se ela não tivesse deixado o bilhete eu acreditaria que tinham roubado minha casa, mas ela deixou o sistema de alarme. Em suma, ela levou tudo. Engraçado, ela levou vinte e nove anos pra decidir me largar, mas menos de uma hora pra empacotar tudo e sumir. Com as crianças já na faculdade e morando um em cada canto, pelo menos não temos que ficar disputando guarda nem nada.

No armário, me sobraram um pacote de bolachas velho e um copo sujo. Pelo menos ela tem compaixão. A sensação de solidão foi tão ruim quanto passageira. Foi rápida, mas deixou uma semente na minha cabeça. O que eu vou fazer daqui pra frente? Sem emprego, sem esposa, sem casa. Mas não vou esmorecer. Vou dar um jeito nisso tudo. Vou consertar as coisas, vou mudá-las pra melhor. Melhor do que nunca. Nunca mais será assim. Pego o que preciso. A chave do carro, troco de camiseta por uma mais leve dentre as que estavam jogadas no chão do meu outrora quarto. Pior que eu gostava daquele guarda-roupa. Pelo menos ela não achou meu esconderijo pra itens de sobrevivência. Levanto a tábua solta no canto do quarto e puxo a caixa velha e empoeirada. Abro ela ainda sentado no chão. As fotos de minha mãe na nossa casa antiga me enchem os olhos de lágrimas. Passo trinta ou quarenta minutos sentado no chão olhando e chorando. Quando minha mãe faleceu eu estava viajando com a Vanessa pela Europa. Um tour para aliviar a cabeça. Foi o que ela me disse. Voltei duas semanas depois do enterro. O Máximo que ouvi de minha, na época, esposa foi um “sinto muito”. Ela nunca se deu bem com minha mãe.

Por fim, apanho a caixa, as fotos e tudo o que preciso e entro no carro. Dirijo por quinze minutos até o cemitério. Limpo a lápide da minha mãe e deixo a caixa em frente ao túmulo, ignorando os avisos do zelador quanto aos roubos frequentes no cemitério. Passo na casa do meu ex-sogro e dou uma pedrada na janela de frente sem nem frear o carro. É covardia, eu sei, mas ainda tenho mais um destino e não posso me atrasar. Paro o carro na rua do meu ex-serviço (incrivel como o tal do “ex-” fixou no meu vocabulário) um pouco acima. São 11h 49min. Eu espero pacientemente. Meio dia e seis. Sol a pino. O portão eletrônico se abre com um estalido seco. Sai a secretária, dois funcionários e Iris logo atrás. Só para situar o amigo leitor, ela trabalhava na mesma sala que eu e na mesma função, junto com mais duas outras pessoas. Eu odiava a todos, mas ela era a unica que fazia questão de alimentar isso em mim. Mesmo sem saber.

12h 7min - Meu ex-patrão heroicamente sacrifica o almoço pra esperar a policia chegar. Ele provavelmente dará queixa do vidro do meu sogro. Minha esposa deve ter avisado. Íris atravessa a rua e eu acelero, ela não percebe que sou eu e muito menos que não vou frear. Ela pula pra calçada tardiamente. Eu viro o volante uns trinta graus, acertando-a no meio das pernas. Juro que ouvi os ossos dela quebrarem quando ela cai mais na calçada. Todos assustados e uns ainda no chão. Eu saio do carro calmamente com o 38 na mão direita, verificando as balas. Me dirijo até ela caminhando na maior calma do mundo. Ninguém se aproxima por medo. Ela tenta se arrastar chorando e soluçando quando percebe a minha sombra. Ela olha pra mim e consegue soltar um “Por que?” entre os soluços e lágrimas engasgadas com sangue. Eu miro na cabeça e disparo. Ela caiu com um baque seco. A viatura descendo a rua desesperadamente e estacionando de lado. Dois policias descem se escondendo atrás das portas do carro. Eles gritam algo que não entendo. Lágrimas brotam dos meus olhos e penso em minha mãe. Aponto o revólver. O cano frio machuca meu queixo. Eu aperto o gatilho. E tudo fica escuro. Era Terça-feira.

“There will be an answer, let it be.”
Minha frase pra hoje. Nunca fez tanto sentido como hoje…

“There will be an answer, let it be.”

Minha frase pra hoje. Nunca fez tanto sentido como hoje…

“This city is afraid of me. I’ve seen it’s true face”
Eu sei que já disse isso, maaas…AMO ESSE FILME!

“This city is afraid of me. I’ve seen it’s true face”

Eu sei que já disse isso, maaas…AMO ESSE FILME!

“That is a tasty burguer…Vincent, have you ever have a Big Kahuna Burguer?”
Filme do fim de semana - Que devo ter assistido pela duocentésimaonogésimaquinquagésima terecira vez…

“That is a tasty burguer…Vincent, have you ever have a Big Kahuna Burguer?”

Filme do fim de semana - Que devo ter assistido pela duocentésimaonogésimaquinquagésima terecira vez…

“Eu acordo ainda meio desorientado. A noite foi dificil. Achei que não sobreviveria, e aqui estou eu pra contar a historia. Aqui estou eu, vivo e inteiro, pra poder abraçar a minha familia. Estranho como deu certo. Eu sento na cama e mexo o pescoço até estralar. Ainda cansado eu olho para a minha esposa. O medo e o espanto me escalam a espinha como dois titãs rumo ao Olimpo. E só uma certeza paira em minha mente perturbada: Ele não estava morto!!!”
Ficou curioso? Quer saber mais? Então acessa meu blog http://forgottentales1.blogspot.com e leia o conto “O Caçador”. Espero que gostem e comentem.
Forgotten Tales - Leia, siga, comente e indique. Muito obrigado.
by: Jôder Filho

“Eu acordo ainda meio desorientado. A noite foi dificil. Achei que não sobreviveria, e aqui estou eu pra contar a historia. Aqui estou eu, vivo e inteiro, pra poder abraçar a minha familia. Estranho como deu certo. Eu sento na cama e mexo o pescoço até estralar. Ainda cansado eu olho para a minha esposa. O medo e o espanto me escalam a espinha como dois titãs rumo ao Olimpo. E só uma certeza paira em minha mente perturbada: Ele não estava morto!!!”

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Quando uma mulher muda de vida seis vezes, o marido vai à falencia…
(Coco Chanel de pingos, o filme)