
Pela janela da sala os primeiros raios do Sol invadiam o cômodo imundo, expulsando as sombras que haviam sido deixadas pela noite. Lentamente as baratas se dirigiam para os buracos nas paredes, escondendo-se do dia que nascia. Geralmente Alice já tinha se levantado, mas a casa estava estranhamente quieta naquele dia. Cássio bateu mais forte na porta, pensando que sua namorada havia dormido até tarde. Não seria de se surpreender, afinal, eles ficaram conversando pelo telefone até as três horas da madrugada, tentando se acertar. Curiosamente, ele nem se lembrava o teor da briga. Eram tão comuns as discussões entre os dois que ele ás vezes sentia falta delas.
Colocou o buquê de rosas na mesa do corredor e se abaixou procurando a chave extra nas plantas. Na maioria das vezes, ela deixava a chave ali pra ele não incomodar os vizinhos quando chegava. O problema é que ela não sabia que ele iria esta manhã. Cássio havia planejado surpreendê-la com as flores e o pedido de casamento, mas ao encontrar a chave na planta soube que algo estava errado. Ficou pouco mais de um minuto parado deixando o olhar vagando da chave para a porta e de volta para a chave. Tomando coragem ele colocou a chave na fechadura e a girou o mais silenciosamente possível. Entrou na sala notando a bagunça maior do que o normal tomando o lugar. Deixou as flores sobre o único espaço onde não havia sujeira na mesa do centro. O resto estava debaixo do maior acúmulo de comida e lixo que Cássio já vira. Olhou em volta ainda tentando entender a causa de tudo aquilo. Alice era bem desleixada ás vezes, mas aquilo beirava o abandono. Ouviu um ruído vindo do fim do corredor, como algo raspando na madeira. Viu o enorme labrador de Alice raspando a pata dianteira na porta do quarto, no fim do corredor. Parou encarando a porta. O cão lambeu sua mão de leve, soltando um ganido baixo. Cássio girou a maçaneta, abriu a porta e a viu. Ela estava deitada seminua com as pernas retorcidas. Seu braço direito repousava sobre seu peito enquanto seu corpo escondia o esquerdo. Sua cabeça pendia para fora da cama de casal e uma poça de vomito havia se formado no piso ao lado da cama. Cássio levou alguns segundos para assimilar tudo, mas assim que entendeu a cena correu para junto de Alice.
— ALICE, PELO AMOR DE DEUS O QUE HOUVE?! FALA COMIGO, AMOR! – o corpo da moça permanecia frio e inerte – ALICE, NÃO! POR FAVOR, NÃO! ACORDA AMOR! ACORDA!
A ambulância chegou por volta das dez horas da manha. O tempo todo Cássio ficou ao lado do corpo de Alice. Ás vezes se lamentando por não ter estado lá, ás vezes lembrando-se dos momentos que tiveram. O CD player dela ficara tocando a noite inteira seus CDs favoritos e agora tocava ‘’Nothing Else Matters’’ do Metallica. A banda favorita dos dois. Sempre ouviam juntos quando podiam e Cássio adorava essa musica, mas, infelizmente, só agora entendia o real significado dela. ‘’So close no matter how far… ’’ começava a musica, mas nesse exato momento um dos paramédicos desligou o som, arrastando Cássio de volta à sua triste realidade. Um policial parou à sua frente com um caderno de anotações e uma caneta de marca barata.
—Garoto, podemos conversar na sala, por gentileza? Você tem umas perguntas pra responder. – disse ele se encaminhando para a porta. Cássio se levantou e caminhou atrás do detetive sem tirar os olhos do corpo de sua namorada.
Havia seis ou sete policias na sala e todos se viraram quando viram Cássio entrando. O detetive sentou-se no sofá e apontou a poltrona para que ele se sentasse. Cássio ficou de pé, de costas para a porta. Dois policiais se postavam na porta e ele notou que comentavam sobre ele.
—Você era parente da vítima, garoto? – disse o detetive.
— Noiv… Namorado. – ele conseguiu dizer.
—Se quiser beber algo para relaxar, fique à vontade. – o detetive disse sem levantar a cabeça do bloco de anotações.
—E adianta? – Cássio respondeu secamente. Aquilo podia ser rotina pra eles, mas não era para ele. – Não é um copo de uísque que vai trazê-la de volta, certo? – ele completou encarando o detetive.
A sala ficou em silencio por poucos segundos, mas foi o suficiente para Cássio ouvir o policial que estava a direita na porta de entrada cochichando para o outro. As únicas palavras que entendeu foram ‘’drogada’’ e ‘’morta’’, mas foi o suficiente pra fazê-lo agir. Num reflexo de fúria ele se virou e agarrou o policial pelo colarinho, seu antebraço empurrando o queixo dele contra a porta. Todos na sala ficaram paralisados exceto o outro tira da esquerda, que sacou a arma do coldre e agora a apontava para a cabeça de Cássio.
—EU VOU TE MOSTRAR QUEM ERA DROGADA, SEU DESGRAÇADO! – Cássio berrava encarando o policial – EU VOU TE MATAR, SEU BOSTA!
—Larga ele agora! – ordenou o policial sem abaixar a arma.
O detetive se levantou e caminhou até ficar entre Cássio e a arma do outro policial.
—Solte-o, rapaz. Nós estamos aqui para ajudá-lo. Ele não quis dizer isso, não foi, Fontes? – ele disse encarando o policial perplexo que se limitou a agitar a cabeça apressadamente. – Agora solte-o e sente-se no sofá. Nenhum de nós teve a culpa do suicídio de sua namorada.
Cássio soltou o policial e se virou para o detetive encarando-o sem entender ainda o que ele havia dito.
—Suicídio? É essa a teoria de vocês?
—Não é teoria – respondeu o detetive sentando-se novamente – Uma grande quantidade de um medicamento foi encontrado no sangue da sua namorada. As digitais dela estão na caixa e em alguns comprimidos que estavam espalhados. Agora, já sabemos seu nome, seu endereço e seu telefone graças aos seus documentos, mas ainda tem coisas a esclarecer. Como por exemplo…
—Ela não se suicidou! – Cássio interrompeu encarando o detetive – Alice jamais faria algo assim. Ela nem sequer usava drogas – seu olhar encontrou o do policial de relance.
—Garoto, eu sei que é difícil aceitar, mas nós somos peritos. Lidamos com isso direto. Vai por mim, quanto mais cedo você aceitar, mais fácil fica de entender o motivo depois. Essa é a nossa linha de investigação, e é a ela que vamos seguir. – ele disse por fim.
—Então pode pegar sua linha de investigação e ir se danar – disse isso saindo do apartamento. O cão de Alice pulou do canto onde estava e seguiu Cássio até o carro. Quando já estavam longe da casa Cássio teve o primeiro pensamento que o levaria à ruína. ‘’Isso não vai ficar assim. Eu vou descobrir quem fez isso com você Alice’’. E com esse pensamento acelerou seu carro.




